A Saúde de Nossos Filhos
- Plinio von Zuben Jr

- 10 de dez. de 2025
- 10 min de leitura

O Futuro em Nossas Mãos
Ser pai e mãe no mundo de hoje é uma jornada complexa, repleta de desafios e alegrias. Em meio a rotinas corridas, buscamos oferecer o melhor para nossos filhos: a melhor educação, as melhores oportunidades e, acima de tudo, um futuro brilhante. Mas, em meio a essa busca, um ladrão silencioso tem ameaçado esse futuro: a obesidade infantil. Este não é um texto para apontar culpas, mas um convite para olharmos juntos, com honestidade e cuidado, para a saúde das crianças que são o centro de nossas vidas.
Longe de ser um problema distante, a obesidade infantil se tornou uma epidemia global, e os números são um chamado à atenção. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o cenário mudou drasticamente em poucas décadas. Em 1990, apenas 8% das crianças e adolescentes (5 a 19 anos) no mundo estavam com sobrepeso. Em 2022, esse número saltou para 20%, o que representa mais de 390 milhões de jovens (1).
No Brasil, a realidade não é diferente. Dados do Ministério da Saúde e do Atlas da Obesidade Infantil mostram que 3 em cada 10 crianças de 5 a 9 anos estão acima do peso, com mais de 3,1 milhões de crianças menores de 10 anos já afetadas pela obesidade (3).
Até 2035 o impacto global anual da obesidade pode ultrapassar US$ 4,3 trilhões, equivalente a quase 3% do PIB mundial, nível semelhante ao choque econômico da COVID-19.
Cerca de 3,7 milhões de pessoas morrem todos os anos por doenças para as quais o sobrepeso e a obesidade são fatores casuais determinantes.
O que antes era visto como um problema de países ricos, hoje avança de forma preocupante em nações de baixa e média renda, mostrando que essa é uma questão de saúde pública que afeta a todos nós.
Doenças de Adultos em Corpos de Crianças
O mais alarmante no avanço da obesidade infantil é que ela traz consigo doenças crônicas que, até pouco tempo atrás, eram exclusivas da população idosa. Hoje, vemos uma epidemia de hipertensão arterial e diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes, condições diretamente ligadas ao excesso de peso.
A obesidade é o fator de risco mais crítico para a hipertensão em crianças e adolescentes. Estudos mostram que a prevalência de pressão alta em crianças obesas pode chegar a 27,7%, um aumento dramático que eleva significativamente o risco de doenças cardiovasculares na vida adulta (4).
O diabetes tipo 2, antes considerado uma doença de adultos, também se tornou uma realidade preocupante. Uma criança obesa tem quatro vezes mais chances de desenvolver a doença (5).
A transição da obesidade para o diabetes, que em um adulto leva cerca de uma década, pode acontecer na metade do tempo em um jovem (5).
No Brasil, os atendimentos ambulatoriais por diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes subiram assustadores 225% nos últimos anos, um reflexo direto dessa nova e trágica realidade (6).
Diante desse cenário, a pergunta que ecoa no coração de todo pai e mãe é: "Onde erramos?". A resposta não é simples e está longe de ser uma culpa individual. Vivemos em uma era de profundas transformações sociais. A má alimentação, com o excesso de alimentos ultraprocessados, é sem dúvida um fator crucial. No entanto, a chave para entender essa epidemia talvez esteja na forma como nossas crianças vivem e, principalmente, como elas não brincam mais.
A aptidão física de nossas crianças está se tornando cada vez mais pobre. As brincadeiras ao ar livre, as corridas no parque, o subir em árvores e os jogos de rua foram gradualmente substituídos por horas a fio em frente a telas. Um estudo recente revelou um dado chocante: 68,8% das crianças que passam mais de sete horas por dia em telas não praticam nenhuma atividade física (7).
As telas, embora ofereçam entretenimento e conexão, promovem um sedentarismo extremo. Esse tempo excessivo não apenas reduz o gasto calórico, mas também está associado a um maior consumo de alimentos não saudáveis, muitas vezes impulsionado pela publicidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) é clara em suas recomendações (8):
• Até 2 anos: Nenhum tempo de tela.
De 2 a 4 anos: Máximo de 1 hora de tela por dia.
Enquanto isso, a recomendação para atividade física é de pelo menos 180 minutos (3 horas) por dia para crianças de 1 a 4 anos. Estamos, infelizmente, vivendo a inversão completa dessa orientação.
O Papel Essencial dos Pais: Firmeza e Educação, Não Permissividade
Neste ponto crítico da nossa conversa, é fundamental abordar uma verdade incômoda que muitas vezes evitamos: os pais têm um papel decisivo e inegociável na saúde dos filhos, e esse papel exige firmeza, autoridade educadora e responsabilidade pessoal. Não se trata de culpa, mas de reconhecer que a paternidade e a maternidade demandam coragem para fazer escolhas difíceis.
A permissividade é, sem dúvida, o caminho mais fácil. É mais cômodo permitir que a criança passe horas em frente a uma tela do que lidar com seus choros e reclamações. É mais prático oferecer alimentos ultraprocessados e açucarados do que preparar refeições saudáveis. É mais simples ceder aos desejos imediatos da criança do que estabelecer limites firmes e consistentes. Porém, essa facilidade momentânea tem um preço altíssimo: a saúde e o futuro de nossos filhos.
Ser um pai ou mãe educador significa assumir a responsabilidade de dizer "não" quando necessário, mesmo diante da resistência infantil. Significa estabelecer regras claras sobre o tempo de tela, sobre a qualidade da alimentação, sobre a necessidade do movimento e do brincar. Significa ser firme em suas ordens e não "amolecer" quando a criança tenta contornar os limites ou impor sua vontade. Isso não é autoritarismo ou frieza; é, na verdade, um ato profundo de amor.
As crianças precisam de estrutura. Elas prosperam quando sabem que existem limites, que as regras são consistentes e que seus pais têm a força e a determinação para mantê-las. Quando cedemos constantemente, quando permitimos que a criança faça o que bem entende, estamos comunicando uma mensagem perigosa: a de que seus desejos imediatos são mais importantes que sua saúde e bem-estar futuro.
A educação firme não significa rigidez ou falta de afeto. Significa que o amor que sentimos por nossos filhos é tão profundo que estamos dispostos a enfrentar seu desconforto momentâneo em prol de seu bem maior. É a capacidade de abraçar a criança após estabelecer um limite, de explicar com paciência por que aquela regra existe, mas sem negociar a regra em si.
A Firmeza como Alicerce da Autoconfiança e Resiliência
Pode parecer contraintuitivo, mas a firmeza dos pais, quando exercida com amor e consistência, é um dos pilares mais importantes para a construção da autoconfiança e da resiliência de uma criança a longo prazo. Muitos pais temem que, ao dizer "não" ou ao estabelecer limites rígidos, estarão frustrando seus filhos e, consequentemente, prejudicando sua autoestima. A verdade, no entanto, é exatamente o oposto.
A permissividade, ao contrário do que se imagina, não gera crianças mais felizes ou seguras. Ela cria um ambiente de ansiedade e incerteza. Quando as regras são inconsistentes e os limites são frouxos, a criança nunca sabe o que esperar. Ela cresce com uma falsa sensação de poder, acreditando que o mundo deve se curvar aos seus desejos. O primeiro "não" que a vida lhe impõe fora do ambiente familiar — seja de um professor, de um amigo ou de um futuro chefe — se torna uma fonte de profunda frustração e desestabilização. A criança que não aprendeu a lidar com a negação em casa não desenvolve as ferramentas emocionais para enfrentar as adversidades inevitáveis da vida.
Por outro lado, um ambiente com limites claros e firmes é um ambiente previsível e, portanto, seguro. Quando a criança sabe exatamente o que se espera dela e entende que as consequências de seus atos são consistentes, ela aprende a navegar pelo mundo de forma mais eficaz. Ela aprende a autorregular suas emoções e a tolerar a frustração. Essa capacidade de adiar a gratificação e de lidar com o desconforto de não ter seus desejos atendidos imediatamente é a essência da resiliência.
É nesse terreno fértil da firmeza que a verdadeira autoconfiança floresce. A criança não desenvolve uma autoestima saudável por ter todos os seus caprichos atendidos, mas sim por se sentir capaz de superar desafios e de se adaptar às regras. Cada vez que ela respeita um limite, aprende uma nova habilidade ou lida com uma frustração de forma construtiva, sua confiança em suas próprias capacidades aumenta. Ela aprende que seu valor não reside em conseguir o que quer, mas em ser forte, adaptável e competente.
Portanto, a firmeza parental não é sobre controlar a criança, mas sobre dar a ela as ferramentas internas para que ela possa se controlar. É sobre construir um caráter sólido, capaz de enfrentar as tempestades da vida com a tranquilidade de quem sabe que, mesmo que o mundo diga "não", ela tem a força interior para seguir em frente. Ao sermos pais firmes e educadores, não estamos apenas cuidando da saúde física de nossos filhos; estamos forjando a espinha dorsal de sua saúde emocional e mental para o resto de suas vidas.
Um Olhar para Nós, Pais e Mães
Ao nos depararmos com a gravidade desses dados, é natural que um sentimento de culpa e angústia recaia sobre nossos ombros. A pergunta "Onde eu errei?" pode se tornar um eco doloroso. É fundamental, neste momento, que nos acolhamos. A paternidade e a maternidade modernas são uma maratona exaustiva, muitas vezes solitária, travada em meio a uma avalanche de informações contraditórias e pressões sociais.
Lutamos para equilibrar longas jornadas de trabalho com a necessidade de estarmos presentes. O cansaço no final do dia muitas vezes nos vence, e a praticidade dos alimentos rápidos ou a paz momentânea que uma tela proporciona se tornam refúgios compreensíveis. Não se trata de uma falha de caráter ou de falta de amor. Pelo contrário, muitas dessas escolhas nascem do desejo de proporcionar conforto e de simplesmente conseguir atravessar mais um dia.
Porém, reconhecer essa realidade não deve nos paralisar em inércia. A diferença entre compreender nossas limitações e usá-las como desculpa para não agir é crucial. Sim, somos humanos cansados. Sim, vivemos em uma sociedade que nos oferece poucas redes de apoio. Mas isso não nos desobriga da responsabilidade que assumimos ao trazer uma criança ao mundo. A paternidade e a maternidade responsáveis exigem que, apesar do cansaço, apesar das dificuldades, façamos as escolhas difíceis que protegem a saúde de nossos filhos.
Reconhecer essa realidade não é criar uma desculpa, mas sim humanizar o problema enquanto mantemos a responsabilidade pessoal. A epidemia de obesidade infantil não é um fracasso individual dos pais, mas um sintoma de uma sociedade que nos oferece poucas redes de apoio, nos vende a conveniência a um custo altíssimo e normaliza um estilo de vida que adoece. Mas dentro dessa estrutura sistêmica desfavorável, ainda temos poder. A culpa nos paralisa. A consciência, por outro lado, nos move. A proposta aqui é transformar essa angústia em um ponto de virada, um despertar coletivo para a necessidade de repensar não apenas o que oferecemos aos nossos filhos, mas o que exigimos de nós mesmos e da comunidade ao nosso redor.
Resgatando o Futuro agora! Ações Firmes e Consistentes
Este cenário pode parecer desolador, mas ele carrega uma mensagem de esperança: a mudança está em nossas mãos. Despertar para essa realidade é o primeiro e mais poderoso passo para proteger o futuro de nossos filhos. Não se trata de buscar a perfeição, mas de iniciar uma transformação gradual, um ato de amor contínuo. E essa transformação começa com a decisão de sermos pais e mães firmes, educadores, que assumem a responsabilidade de suas escolhas.
Como podemos começar?
1. Redescubra o Brincar com Autoridade: Troque uma hora de tela por uma hora de brincadeira. Seja um passeio no parque, uma dança na sala ou um jogo de esconde-esconde. O brincar é fundamental para o desenvolvimento físico e cognitivo. Mas isso exige que você, como pai ou mãe, estabeleça essa regra firmemente. Não é uma sugestão; é uma decisão não-negociável. Quando a criança reclamar, você acolhe o sentimento, mas mantém a posição. "Entendo que você quer ficar na tela, mas agora é hora de brincar. Vamos juntos."
2. Seja o Exemplo com Consistência: As crianças aprendem pelo exemplo. Se elas virem você se movimentando, comendo de forma mais saudável e limitando seu próprio tempo de tela, elas seguirão seus passos. Mas isso também exige que você seja firme consigo mesmo. Não é suficiente dizer à criança para não comer junk food enquanto você come. Não é suficiente pedir que ela se mova enquanto você fica sedentário. A educação começa em casa, com você sendo o modelo que você quer que seu filho seja.
3. Qualidade no Tempo Sedentário com Limites Claros: Quando for inevitável ficar parado, opte por atividades interativas longe das telas. Ler um livro juntos, contar histórias, montar um quebra-cabeça. Essas atividades fortalecem os laços e estimulam a mente. Estabeleça horários específicos para essas atividades e mantenha-se firme. As telas têm horários definidos, não são acessíveis a qualquer momento.
4. Pequenas Metas, Grandes Vitórias, com Responsabilidade: Comece com metas realistas. Reduzir o tempo de tela em 30 minutos por dia ou incluir uma caminhada de 15 minutos após o jantar já são grandes conquistas. Mas aqui está o ponto crucial: você é responsável por manter essas metas. Não é a criança que vai se policiar; é você que vai estabelecer a estrutura, manter a consistência e não ceder quando as coisas ficarem difíceis. Quando você diz que a tela desliga às 19h, ela desliga às 19h. Sem negociações, sem "mais cinco minutos", sem exceções constantes.
A verdade que precisamos abraçar é que ser pai e mãe é uma responsabilidade que não pode ser terceirizada ou adiada. Não podemos culpar a sociedade, a tecnologia ou a falta de tempo e então permanecer inertes. Precisamos ser os guardiões da saúde de nossos filhos, mesmo quando isso significa ser impopular, mesmo quando significa ouvir choros e reclamações, mesmo quando significa ir contra a corrente de uma sociedade que nos oferece facilidades prejudiciais.
A permissividade é tentadora porque nos oferece paz momentânea. Mas a verdadeira paz vem da consciência de que estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para proteger a saúde e o futuro de nossos filhos. Essa paz vem da firmeza, da consistência, da autoridade educadora exercida com amor.
Cuidar da saúde de nossos filhos é o maior legado que podemos deixar. Ao ensiná-los a amar o movimento, a nutrir o corpo com bons alimentos, a encontrar alegria longe das telas e, acima de tudo, ao demonstrar que seus pais são firmes, consistentes e responsáveis por suas vidas, estamos lhes dando as ferramentas para uma vida longa, saudável e feliz. O futuro deles está, literalmente, em nossas mãos. E isso é uma responsabilidade que merece toda a nossa força, toda a nossa firmeza e todo o nosso amor.
Referências
[1] Organização Mundial da Saúde. (2024). Obesity and overweight.
[2] Ministério da Saúde do Brasil. (2021). Obesidade infantil afeta 3,1 milhões de crianças menores de 10 anos no Brasil.
[3] ABESO - Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. Mapa da Obesidade.
[4] Jeong, S. I., & Kim, S. H. (2024). Obesity and hypertension in children and adolescents. Clinical Hypertension.
[5] Oranika, U. S., et al. (2023). The Role of Childhood Obesity in Early-Onset Type 2 Diabetes Mellitus: A Scoping Review. Cureus.
[6] Associação Paulista de Medicina. (2025). Atendimento de crianças e adolescentes subiu 430% por obesidade e 225% por diabetes no país.
[7] Nasrallah, M., et al. (2025). Assessing the Effect of Screen Time on Physical Activity in Children Based on Parent-Reported Data: A Cross-Sectional Study. Cureus.
[8] Organização Mundial da Saúde. (2019). To grow up healthy, children need to sit less and play more.





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