Testosterona além do número
- Plinio von Zuben Jr

- 16 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

Testosterona além do número: quando o exame começa a mandar mais que o corpo
Nos últimos anos, a testosterona virou quase um símbolo de saúde, juventude e desempenho. Fala-se muito sobre ela, mede-se com frequência e, cada vez mais, repõe-se como se fosse algo simples, automático e sem grandes consequências. O que antes era uma decisão médica cuidadosa passou, em muitos casos, a ser tratada como um ajuste fino de laboratório ou estética.
O problema começa quando se cria a ideia de que não basta estar saudável. É preciso estar no “topo” da normalidade do exame. Como se todos os corpos devessem funcionar da mesma forma, com os mesmos números, ignorando que cada pessoa tem uma história, uma rotina, um nível de estresse, um sono diferente e um modo único de responder à vida.
Muitas vezes, uma decisão tão importante nasce de um único exame feito em um único dia. Pouco se conversa sobre como anda o sono, a alimentação, o nível de atividade física, o estresse do trabalho, o uso de álcool ou até o momento emocional da pessoa.
Um número isolado acaba valendo mais do que o próprio corpo. E a reposição hormonal surge como solução rápida para algo que, na maioria das vezes, não é uma doença, mas um reflexo direto de hábitos ruins mantidos por muito tempo.
Antes de pensar em corrigir um hormônio, talvez a pergunta mais honesta fosse: esse corpo está doente ou apenas exausto?
Parte dessa confusão vem da forma como os exames são interpretados. O teste mais comum mede a chamada testosterona total. Esse valor representa toda a testosterona que está no sangue, mas nem toda ela está realmente disponível para o corpo usar. Uma grande parte fica “presa” a proteínas e, nessa forma, não exerce efeito direto.
Existe uma parte menor, chamada testosterona livre, que é a fração realmente ativa. É ela que influencia a disposição, a força, a massa muscular, o humor, a libido e a recuperação. Duas pessoas podem ter exatamente o mesmo valor de testosterona total e se sentirem completamente diferentes. Uma pode estar bem, cheia de energia, enquanto a outra se sente cansada e sem motivação. O exame é igual, mas o corpo não.
Mesmo assim, criou-se a cultura de perseguir o valor mais alto possível dentro da normalidade, como se isso fosse sinônimo de saúde. Mas estar dentro do intervalo de referência não significa que aquele número seja ideal para você. Cada organismo tem um ponto de equilíbrio próprio. Forçar o corpo a funcionar em um nível que não é natural para ele pode trazer consequências ao longo do tempo e impactos silenciosos na saúde cardiovascular e metabólica.
Tudo isso, muitas vezes, para ajustar um número — e não para resolver a causa real do problema. O que quase nunca recebe destaque é que o corpo responde muito bem quando os hábitos mudam. Dormir melhor, por exemplo, é um dos estímulos mais fortes para a produção natural de testosterona. Treinar de forma equilibrada, sem exageros e com boa recuperação, também ajuda. Reduzir o excesso de gordura corporal melhora o ambiente hormonal, assim como comer o suficiente, com alimentos de verdade, sem dietas extremas ou restrições constantes.
O estresse merece atenção especial. Viver constantemente acelerado, tenso e sob pressão faz o corpo entrar em modo de sobrevivência. Nesse estado, ele não prioriza vitalidade, força ou equilíbrio hormonal. Cortisol alto e testosterona alta raramente andam juntos por muito tempo.
Essas mudanças não prometem resultados imediatos, mas constroem algo muito mais sólido: saúde de longo prazo. Quando o estilo de vida melhora, os hormônios tendem a se ajustar naturalmente.
Quando falamos das mulheres, o cuidado precisa ser ainda maior. A testosterona também existe no organismo feminino e tem papel importante na energia, na libido, na massa muscular e no bem-estar. Porém, seus níveis são muito mais baixos do que nos homens, e pequenas alterações já causam efeitos significativos. Por isso, não é um exame pedido de forma rotineira. Investigar testosterona em mulheres faz sentido apenas em situações específicas, como queda importante de libido, cansaço persistente sem explicação clara, perda excessiva de massa muscular ou mudanças importantes após a menopausa ou retirada dos ovários. Mesmo nesses casos, qualquer decisão deve considerar todo o contexto hormonal e de saúde. Reposição em mulheres não é moda, nem solução estética. É exceção, não regra.
Talvez o maior problema da testosterona hoje não seja a falta dela, mas a pressa em corrigir números sem olhar para o todo. Tentamos ajustar exames antes de ajustar hábitos. Buscamos atalhos antes de fazer mudanças reais. Silenciamos sinais do corpo com soluções rápidas, quando ele está apenas pedindo cuidado.
No fim das contas, a pergunta mais importante não é quanto está sua testosterona no exame. É como você tem vivido. Mudar hábitos não é o caminho mais fácil, mas quase sempre é o mais honesto — e o único capaz de construir saúde de verdade.
Como deve ser feito o diagnóstico correto antes de pensar em reposição de testosterona no homem
A reposição de testosterona só deve ser considerada quando existe uma real deficiência desse hormônio, e não apenas pela presença de cansaço, baixa libido ou outros sintomas inespecíficos. Para que o tratamento seja seguro e eficaz, o diagnóstico precisa seguir critérios claros, combinando sintomas com exames feitos da maneira correta.
O primeiro passo é a avaliação clínica. O médico deve ouvir o paciente com atenção e investigar sintomas que realmente possam estar relacionados à deficiência de testosterona, como queda do desejo sexual, dificuldade de ereção, perda de massa muscular, aumento de gordura abdominal, desânimo persistente, alterações de humor e diminuição da disposição física e mental.
Mesmo assim, é importante entender que esses sintomas podem ter várias causas, como estresse, má qualidade do sono, depressão, obesidade ou outras doenças. Por isso, sintomas sozinhos não justificam iniciar reposição hormonal.
Em seguida, entram os exames laboratoriais, que precisam ser feitos com critério. A testosterona é um hormônio que varia ao longo do dia, sendo naturalmente mais alta nas primeiras horas da manhã. Por esse motivo, a dosagem deve ser realizada preferencialmente entre 7 e 10 horas da manhã. Além disso, não basta apenas um exame: são necessárias pelo menos duas dosagens, feitas em dias diferentes e, idealmente, no mesmo horário. Quando a reposição é indicada com base em apenas um exame isolado, especialmente colhido fora do horário adequado, existe um grande risco de erro diagnóstico.
Outro ponto importante é que o exame inicial costuma ser o de testosterona total. Em algumas situações específicas, como em homens com obesidade, diabetes ou idade mais avançada, pode ser necessário avaliar também a testosterona livre ou fazer cálculos complementares. Ainda assim, o resultado do exame nunca deve ser interpretado de forma isolada, sem considerar os sintomas e o contexto de saúde do paciente.
De modo geral, valores persistentemente baixos de testosterona, confirmados em duas coletas corretas e associados a sintomas compatíveis, podem sugerir um quadro de deficiência hormonal. Já valores limítrofes exigem ainda mais cautela e investigação antes de qualquer decisão terapêutica. Tratar apenas um número, sem olhar a pessoa como um todo, é um erro comum e potencialmente perigoso.
Antes de iniciar qualquer reposição, também é fundamental investigar a causa da testosterona baixa. Existem situações em que o problema está nos testículos, em outras em que a origem está no cérebro (hipófise ou hipotálamo), e há ainda casos em que fatores como excesso de peso, apneia do sono, uso de certos medicamentos ou doenças mal controladas são os verdadeiros responsáveis. Ignorar essa etapa e partir direto para a reposição pode mascarar problemas importantes e gerar efeitos colaterais desnecessários.
Outro aspecto que muitas vezes é negligenciado é que a reposição de testosterona não é isenta de riscos. Ela pode interferir na produção natural do hormônio, reduzir a fertilidade, alterar exames de sangue, piorar quadros como apneia do sono e exigir acompanhamento regular. Por isso, homens que desejam ter filhos ou que não passaram por uma avaliação completa precisam de atenção redobrada.





Ótimo texto!
Reposição da testosterona em mulheres é raramente indicada.
Os riscos para ganho de massa e ganho de “energia” não compensam.
Parabéns de novo!
Eu estou fazendo TRH( terapia de reposição hormonal) e estou gostando muuuuuito.
Faço com um médico especialista em reposição na menopausa.
Controle laboratorial a cada 2 meses, consulta a cada 4 meses.
E concordo, cada reposição tem que ser feita de forma individualizada!! TRH NÃO É RECEITA DE BOLO!! O paciente tem que ser visto pelo médico como um TODO.
O contexto dos hábitos é perfeito!!
São os pilares:
-Alimentação
-Atividade física
-Sono
-Estresse e
-Relações toxicas.
Não adianta depositar toda a esperança nos hormônios e não equilibrar o restante ,ou seja, de nada vale repor hormônios e se
" entupir "de carboidratos e açúcar, ser sedentário, não evitar situações, locais e pessoas que não fazem bem a você, não…