A Nova Fronteira do Emagrecimento
- Plinio von Zuben Jr

- 8 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

A Nova Fronteira do Emagrecimento: Uma Análise Crítica e atual sobre as 'Canetinhas'
Nos últimos anos, uma nova classe de medicamentos injetáveis, popularmente conhecidos como "canetinhas emagrecedoras", ganhou imensa notoriedade. Nomes como Ozempic, Wegovy e Mounjaro passaram a circular em conversas, na mídia e nas redes sociais, prometendo uma nova era no tratamento da obesidade. No entanto, a história desses medicamentos começou de forma diferente. Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, os agonistas de GLP-1 tinham como objetivo principal controlar os níveis de glicose no sangue (7).
Foi durante os estudos clínicos que um "efeito colateral" chamou a atenção dos pesquisadores e, posteriormente, da indústria farmacêutica: a perda de peso significativa dos pacientes.
Percebendo o potencial bilionário, a indústria rapidamente reverteu o foco, buscando aprovações regulatórias específicas para o tratamento da obesidade. O sucesso comercial foi estrondoso e imediato. Para se ter uma ideia da magnitude, o Mounjaro (tirzepatida), da Eli Lilly, atingiu a impressionante marca de US$ 780 milhões em vendas em apenas dois meses após seu lançamento nos Estados Unidos, um feito notório que sinalizou para o mercado financeiro o poder dessa nova "mina de ouro" (8).
Esse movimento transformou medicamentos essenciais para diabéticos em objetos de desejo estético, gerando escassez nas farmácias e uma corrida desenfreada pelo emagrecimento rápido.
O mecanismo de ação desses medicamentos envolve mimetizar hormônios que nosso corpo produz naturalmente no intestino, como o GLP-1 e o GIP. Esses hormônios sinalizam ao cérebro uma sensação de saciedade, retardam o esvaziamento do estômago e otimizam a resposta do pâncreas na liberação de insulina. É uma intervenção bioquímica complexa que, de fato, interfere no apetite e no metabolismo. Contudo, a magnitude de seus benefícios e a totalidade de seus riscos ainda são temas de intenso debate no campo da saúde pública, especialmente quando se analisa a origem das evidências científicas disponíveis.
Em termos de eficácia para perda de peso, os números são expressivos, mas variam. Estudos indicam que o uso contínuo de semaglutida (Ozempic/Wegovy) pode levar a uma perda de peso média de cerca de 15% em um ano, enquanto a tirzepatida (Mounjaro) pode chegar a 20% ou mais no mesmo período (9).
No entanto, esse resultado tem um preço alto, literalmente. No Brasil, o custo mensal do tratamento pode variar entre R$ 700,00 e R$ 1.300,00 para o Ozempic, e valores ainda maiores para o Mounjaro, dependendo da dose e da disponibilidade (1).
Em um ano, o investimento pode facilmente ultrapassar R$ 12.000,00 a R$ 15.000,00, sem contar consultas médicas e exames.
O ponto mais crucial para uma análise isenta foi levantado por uma revisão sistemática da Cochrane, uma das mais respeitadas organizações de pesquisa independente do mundo. Em um trabalho encomendado pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS), os pesquisadores concluíram que praticamente todos os estudos clínicos significativos sobre esses medicamentos foram financiados e conduzidos com envolvimento substancial dos próprios fabricantes.
Esta constatação não anula os resultados, mas acende um alerta fundamental sobre potenciais conflitos de interesse. A Cochrane e a OMS destacam a urgente necessidade de pesquisas independentes para validar os efeitos a longo prazo, entender melhor o que acontece após a interrupção do tratamento e avaliar a segurança em populações mais diversas.
Um aspecto central e frequentemente negligenciado do emagrecimento induzido por uma forte restrição calórica, como a que ocorre com o uso desses medicamentos, é a adaptação metabólica. Quando o corpo perde peso rapidamente, ele não apenas queima gordura, mas também reduz seu gasto energético para se proteger do que interpreta como um período de escassez. Isso significa que a taxa metabólica de repouso — a quantidade de calorias que o corpo queima para manter suas funções vitais — diminui significativamente (6).
O problema se agrava quando o medicamento é retirado. A pessoa não apenas volta a sentir mais fome, mas o faz com um metabolismo mais lento do que antes. Esse cenário cria uma "tempestade perfeita" para o reganho de peso, muitas vezes rápido e em maior proporção. Pior ainda, com o metabolismo "danificado" ou prejudicado, futuras tentativas de emagrecimento tornam-se ainda mais difíceis, gerando um ciclo vicioso de frustração e dificuldade.
Diante dessas incertezas e complexidades, a posição dos órgãos de saúde globais e nacionais é de cautela. A OMS, em sua primeira diretriz sobre o tema, emitiu uma recomendação condicional para o uso desses medicamentos no tratamento da obesidade em adultos (2).
A palavra "condicional" é chave: a organização enfatiza que o tratamento só deve ser considerado em conjunto com mudanças de estilo de vida, como dieta e atividade física, e reconhece que a medicação, isoladamente, não resolverá a crise global de obesidade. A maior preocupação da OMS, no entanto, é o acesso equitativo, prevendo que menos de 10% das pessoas que poderiam se beneficiar terão acesso a essas terapias até 2030, o que poderia ampliar ainda mais as desigualdades na saúde.
No Brasil, a abordagem do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme delineado pelo Ministério da Saúde, centra-se na prevenção e no cuidado integral, com foco na Atenção Primária. As políticas públicas para o enfrentamento da obesidade incentivam a alimentação saudável, a prática de atividades físicas e o acompanhamento multiprofissional, sem incluir, até o momento, os agonistas de GLP-1 em seus protocolos de tratamento para a obesidade (3).
A visão é de que a obesidade é um problema complexo, crônico e multifatorial, que não pode ser reduzido a uma única solução farmacológica.
O quesito segurança é outro pilar da análise independente. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) monitora ativamente esses medicamentos e já emitiu alertas importantes. Um deles destaca um evento adverso muito raro, mas grave: a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, que pode levar à perda de visão (4)
Além deste, outros riscos conhecidos incluem pancreatite e gastroparesia (paralisia do estômago). Para reforçar o controle e a segurança, a Anvisa determinou a retenção da receita médica para a compra desses medicamentos, sublinhando que seu uso exige prescrição e acompanhamento rigorosos. O perigo da automedicação foi tragicamente ilustrado por um caso fatal recente no Brasil, que levou o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) a reforçar o alerta de que o uso indevido pode causar eventos graves e até a morte (5).
Minha Reflexão Final…O Custo Real da Saúde
Ao considerarmos o investimento anual de aproximadamente R$ 15.000,00 em medicamentos, vale a pena uma reflexão comparativa. Muitas pessoas fariam um esforço enorme mas custeariam o tratamento, mas será que contratariam o acompanhamento individual de 3 a 4 vezes na semana com um excelente profissional de Educação Física com esse mesmo valor durante um ano inteiro?
A diferença nos resultados, porém, é abissal. Enquanto a "canetinha" promove a perda de peso às custas de gordura e também de preciosa massa muscular, resultando em um metabolismo mais lento e um corpo potencialmente mais flácido e fraco, o exercício físico orientado constrói o oposto. Com o personal, você perde gordura enquanto ganha massa magra, o que aumenta o seu metabolismo de repouso. Ao final de um ano, a pessoa que optou pelo treino terá não apenas perdido peso na balança, mas terá um corpo mais forte, funcional, com mais disposição, saúde cardiovascular blindada e, o mais importante: um metabolismo acelerado que facilita a manutenção do peso conquistado, além de ter adotado hábitos mais saudáveis em sua vida.
A decisão de usar uma ferramenta farmacológica deve ser tomada com extrema cautela e acompanhamento médico. Mas a decisão de investir em movimento e força é, sem dúvida, a aposta mais segura e rentável para a sua saúde a longo prazo. Mas em uma realidade onde nunca houveram tantas pessoas com sobrepeso e obesidade ao mesmo tempo que se encontra quase que uma academia a cada esquina, o sentimento que me acomete enquanto ser humano e profissional da área da saúde é de que as pessoas querem ser emagrecidas por um remédio ou pílula milagrosa mas ainda se sentem fracas e incapazes de fazer isso com seu próprio suor abraçando de fato um propósito de mudança de hábito que envolva exercício sistemático, alimentação saudável e sono priorizado.
Enquanto educador físico sigo por aqui firme em meu propósito de construir saúde através do movimento. Quem precisa de intervenção médica ou auxílio de medicamento é claro que deve obte-la, mas muita gente acaba sendo vitima de uma industria bilionária que quer vender a todo custo. Não me surpreende se em uma próxima geração desses medicamentos adicionarem “um pouquinho” de Testosterona só para combater a perda de massa magra…. E também irão normalizar isso!
Referências
[1] Terra. (2025). Ozempic, Wegovy e Mounjaro: diferenças, custos e cuidados.
[2] Agência Brasil. (2025, 01 de dezembro). Diretriz da OMS para obesidade passa a incluir caneta emagrecedora.
[3] Ministério da Saúde. (2025, 11 de outubro). Cuidados e ações disponíveis no SUS para o tratamento da obesidade.
[4] Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa. (2025, 12 de junho). Anvisa alerta sobre evento adverso muito raro associado à semaglutida que pode levar à perda da visão.
[5] G1. (2025, 01 de dezembro). Os riscos de usar canetas emagrecedoras por conta própria só por estética.
[6] Martins, C., et al. (2022). Metabolic adaptation is a major barrier to weight loss in obese individuals. eLife.
[7] Jornal da USP. (2025). Ozempic, Wegovy e a turma do GLP-1: a pílula mágica que cura tudo.
[8] The Business Journal. (2023). Soaring sales of diabetes drug Mounjaro sends Eli Lilly to new heights.
[9] Drugwatch. (2025). Mounjaro vs. Ozempic: Effectiveness, Side Effects & Cost.





Ótima abordagem!
Temos ainda outro problema por aqui: uso da Tizepatida manipulada.
Não existe, até o momento, IFA (insumo farmacêutico ativo) de tirzepatida registrado ou aprovado pela Anvisa. Os insumos utilizados na manipulação tem origem desconhecida e não passam pelos testes oficiais de qualidade, pureza, estabilidade ou equivalência farmacotécnica.
Excelente analise. Ainda tem os efeitos ocultos e futuros, não pesquisados e portanto não concretos de efeitos massivos em explosão de casos de câncer do sistema alimentar.